Sebastião tem 40 e poucos anos e mora numa pequena cidade com menos de 20 mil habitantes. Nessa pacata localidade todo mundo conhece todo mundo. E no dia em que Sebastião caiu da moto e quebrou o braço, foi o comentário das rodas de conversa. Quando saiu à rua pela primeira vez após o acidente, enquanto estava sentado num dos bancos da praça, aproximou-se um amigo que olhou para o braço engessado de Sebastião e perguntou:
– Quê que aconteceu?
– Caí da moto e quebrei o braço.
Embora a imagem parecesse bastante óbvia, Sebastião respondeu pacientemente ao amigo. Assim, durante a meia hora que ficou sentado debaixo da sombra da árvore, todas as pessoas que passavam por ali faziam o mesmo questionamento. Dependendo da idade ou do perfil do curioso a pergunta tinha algumas variações:
– O que é que sucedeu cum teu braço, Tião? – indagou um aposentado.
– Pamodi quê ce tá cum esse gesso? – perguntou uma benzedeira.
– Sebastião, qual o problema com seu braço? – questionou uma professora.
Para essas e muitas outras pessoas que cruzaram seu caminho, ele dava sempre a mesma resposta:
– Caí da moto e quebrei o braço.
No supermercado, no posto de gasolina, no bar, na cafeteria, na farmácia, na padaria e até na saída da missa os conhecidos faziam fila para olhar no gesso do braço, levantar a cabeça e perguntar sobre o ocorrido. A curiosidade das pessoas incomodava Sebastião mais do que o fato de seu braço estar fraturado. A impressão que ele tinha era de que as pessoas tinham combinado em insistir todas num único questionamento apenas para irritá-lo. Pensando numa maneira de não ter de dar sempre a mesma resposta, arrumou uma caneta pincel e escreveu em letras grandes na extensão do braço, em duas linhas, os seguintes dizeres: “Caí da moto. Quebrei o braço”.
Para o próximo curioso que apareceu, Sebastião sorriu e, assim que foi feito o questionamento, mostrou o texto estampado no gesso. “Com certeza agora ninguém mais vai me incomodar querendo saber o que aconteceu”, pensou. E para sua surpresa, após ler o texto no gesso, a bisbilhotice de todos a partir daquele momento tomou um novo foco:
– E doeu?